Quarta-feira, Dezembro 28, 2005 

Ao "cinema inteligente" IV

 

"Nunca me aconteceu desentender-me com os técnicos, à excepção de um operador de câmara. Tinha-lhe pedido para preparar uma panorâmica. Vou mijar e, quando regresso, vejo que ele fez instalar um pequeno travelling, sob o pretexto que seria mais bonito. Disse-lhe "para ti é mais fácil fazer, e será menos bonito". E mandei-o dar uma volta"

Claude Chabrol, "Como fazer um filme"
Publicado por Manuel Barros

 

Segunda-feira, Dezembro 26, 2005 

Frozen moments: La dolce vita

Quinta-feira, Dezembro 15, 2005 

Ao "cinema inteligente" III

"Não é da narrativa que nasce o filme, mas da organização das imagens e dos sons."

Carlos Melo Ferreira

Terça-feira, Dezembro 13, 2005 

"Block-notes di un regista", Federico Fellini, 1969

Embora quem me conhece saiba que sou suspeito para falar de um dos maiores mestres do cinema europeu e mundial que é Federico Fellini, não evito em pensar mais uma vez o seu cinema. Pela mão deste, nos últimos dias sofri uma das experiências cinematográficas mais intensas e deslumbrantes a que alguma vez fui exposto. Trata-se de "Block-notes di un regista" documentário realizado por Fellini em 1969, para televisão, sobre ele mesmo e a sua actividade como cineasta no momento indicado. Recorrendo a todos os seus atributos folk, circenses e até mesmo teatrais, o próprio encena o seu quotidiano criativo recolhendo depoimentos das personalidades com quem cria, como Mastroiani, Masina ou Nino Rota e recria também os dispositivos socialmente criados pelo sucesso dos seus filmes e da sua essência como sendo as diversas personalidades caricatas, fora do comum, em consonância com o espírito dos seus filmes que o buscam ao seu escritório em catadupa oferecendo os seus serviços em troca de um lugar no grande ecrã.

O realizador não se expõe por inteiro. É a sua personalidade públicamente conhecida que percorre os espaços onde se inspira para as acções decorrentes nas suas peliculas (de notar que estamos no periodo de "Roma" e "Satyricon") por entre o Coliseu e o metro da cidade sua musa em grande parte da sua filmografia. Enfim, um misto de jogo fantasioso de criação pessoal da individualidade com o real, indistinguivel este da sociedade retratada mas ao mesmo tempo da pertencente aos sonhos e imaginação do cineasta italiano.

Na minha opinião trata-se de mais um filme de Fellini onde este assume um papel de uma personagem, da sua personagem, do seu caracter individual interagindo com o colectivo da multidão com quem trabalha, com o seu mundo, o universo paralelo surreal dos cantos da sua Cinecittá, ou devo antes dizer.. do seu mundo interior da fantasia realista?

Luís Carneiro
Dezembro 2005

Segunda-feira, Dezembro 12, 2005 

Ao "cinema inteligente" II

"E depois ninguém sabe o que se vai passar quando se liga uma câmara de filmar. Nunca ninguém soube e é por isso que o cinema é grande. Os que dizem o contrário são uns farsantes e os fIlmes que fazem são umas merdas inúteis. Nunca ninguém soube o que é o cinema."
Pedro Costa
Publicado por José Oliveira

Sábado, Dezembro 10, 2005 

Free Cinema

“Não sou muito movido pela trama, pela história, isso é um facto…Este filme é uma história simples sobre pessoas. Não faço ideia de que tipo de género é, e estou feliz com isso. Faz o meu estilo, de qualquer maneira: olhar para pormenores e ´nuances´”

A frase pertence a Jim Jarmusch cujo seu último filme, “Broken Flowers” que agora estreia entre nós é das coisas mais paradoxais e fascinantes dos últimos tempos: revestido de uma beleza mortal, mostra-nos a viagem interior e exterior de um Don Juan que finalmente toma consciência da sua errância e parte América fora em busca de algo que o possa redimir, de uma segunda oportunidade, do quê? Nem ele sabe muito bem, e basta o plano final para denunciar a sua encruzilhada.

Mas e a frase acima transcrita, o que nos diz? Os mais académicos dirão que é pura insolência, ideal de alguém que sempre esteve contra o “sistema” e que só pode tratar-se de pura auto indulgência.Os mais conservadores dirão que isto não é cinema porque que vai contra todas as regras da construção narrativa, fílmica, etc.

Quem conhece a obra de Jarmusch, desde “Permanent Vacations”, “Stranger than Paradise” até a este “Broken Flowers” sabe que o que o move acima de todas as coisas é as motivações das personagens dos seus filmes, as suas convicções e os seus desejos, a analise de “loosers” e das suas encruzilhadas, o descobrimento e deslumbramento de uma América interior (Jarmusch nasceu em Ohio), que podem tanto ser americanos, como muitas vezes estrangeiros…

Jarmusch prefere pensar em cenas “denunciadoras”, em motivações humanas, comportamentos ou códigos em encantamento, do que na rigidez das plots, dos gráficos, ou do enquadramento dos filmes em géneros…sim, prefere os pormenores, as nuances dos comportamentos humanos, as contradições e assim chega (como Van Sant, por exemplo), a uma experiência mais próxima da vida, de uma abstracção que se afasta literalmente das convenções narrativas que tendem a parecer cada vez mais literatura filmada, separando deste modo as águas …nos seus filmes não se sente uma linha programada para chegar a um fim, não existem “clímaxs” pré programados para nos impor uma moral ou uma emoção…não, sente-se as personagens e o seu interior…como na vida.

No seu cinema floresce algo de muito puro, de muito livre, como no cinema que o realizador mais admira (Ozu, por exemplo) que não está propriamente ligado ás técnicas narrativas, mas que procuram algo interior que advenha dos personagens, e que por isso mesmo o seu cinema vêm sempre revestido de um forte anacronismo, fora de tempo, á parte, como que num regresso aos primórdios cinematográficos (“Broken Flowers lembra “Broken Blossoms”) para assim permitir uma procura de sensações, seja elas qual forem, mais justas e mais inocentes….

Serve isto para dizer que existe espaço para algo mais do que o convencional, o esperado…que é primordial que exista um cinema que vá contra a velocidade e as formatações actuais e que sirva como que um balão de oxigénio…sabe bem encontrar e saborear filmes como “Broken Flowers”, por exemplo.
José Oliveira
Dezembro 2005



Segunda-feira, Dezembro 05, 2005 

Frozen moments: em rodagem




 

Ao "cinema inteligente"

“Vós outros homens não podeis falar de nada sem dizer primeiro: Isto é louco, aquilo é prudente, isto é bom, aquilo é mau! O que é que isso quer dizer? Já profundastes os verdadeiros motivos de uma acção? Já distinguistes as razões que a provocaram? Se tivésseis feito isto, não seríeis tão prontos nas vossas apreciações.”

Em “Werther” de Goethe

Domingo, Dezembro 04, 2005 

Primeiro acto prophetico: crónica de um tempo esgotado

Um primeiro ciclo foi encerrado. De alma virgem e raciocínio ingénuo, desenvolveu-se organicamente, por si só, sabendo quando nascer, berrar e calar. Fugidias, as ideias prespassaram a barreira física e material do espaço, como um judas, anjo caído, rebelde celestial do conceito alternativo.
Mais do que um conjunto de produções cinematográficas e audiovisuais, a Miramarx (produtora que agora encerra a sua actividade), foi a acção irreverente e inconformada de um grupo de três individualidades que colocaram ao dispor desta forma de arte, o seu pensamento, raciocínio e visão, inerentes ao estado das coisas num determinado período de tempo.
Não cabe a mim, um destes três elementos, julgar ou avaliar o trabalho efectuado, nem é esse o meu propósito. Proponho-me aqui, perante as vicissitudes da distância que o tempo me permite, olhar o passado friamente, sem o fulgor de uma ideia instantaneamente dopante.
Fazem parte deste movimento criativo quatro projectos materializados e um metafisicamente concebido. Todos agrupados, embora sem qualquer ligação narrativa ou pictórica propositada entre eles, denominam-se “No limiar da demência”.
O primeiro, uma narrativa sonorizada, retracta as perturbações mentais de um indivíduo que vive entre a visão feminina de um sonho seu e a ânsia de a encontrar na realidade. No exterior, tudo se conjuga e o conduz a um desfecho místico.
Este, de certa forma, representa um prelúdio para o que se seguiria. Realizado por Manuel Barros, “Está tudo acabado” ,concretiza a ideia anterior embora com um carácter mundano de forte psicologia sentimental. Não é um thriller comum; trata-se de uma interactividade visual entre os diferentes componentes filmicos, particularmente entre a cinematografia e o carácter das personagens. O conceito animal do Homem espelha-se no antagonista que se esconde por trás do desejo primitivo num acto psicótico de ganância extrema. A frieza da acção parece ser sentida no ambiente que a rodeia. A personagem feminina sujeita às atrocidades do amante sente-se deslocada no espaço físico como no sentimental, frio e cegante.
Em “Prophetia”, de José Oliveira o personagem é o tema em si mesmo. O realizador dá-nos a mão guiando-nos pela angústia e inquietação do Homem fechado em si mesmo e nas paredes que o prendem. Algo rasga a faixa de harmonia e transe perante a existência materialmente acelerada, descuidada de sentidos. Ínfima roda dentada da máquina do viver, o personagem do filme urge para uma acção predestinada desconhecida, acarretando em si os males particularmente visíveis a caminho do sacrifício urbano do exterior. O indivíduo assume o papel de um cristo, o profeta, escolhido por entre os demais, que embora sofra com a missão que lhe é superiormente imposta é levada a cabo pelo bem do equilíbrio natural.
“Entre Madonna e Wagner de Luís Carneiro” é o terceiro projecto do grupo, realizado, como o titulo indica, pelo próprio Luís Carneiro. Fundado na teorização e pensamento Nietzscheano e Wagnereano da corrupção intelectual do indivíduo este filme reporta à existência de uma jovem tipo dos anos oitenta, mergulhada em música e revistas pop que num sonho se vê perante o vulto e a ameaça de um pseudo Wagner, perturbando a sua aparente tranquilidade metafísica ou sua inexistência (o que lhe confere uma apatia sensível) e física, que resulta na sua morte. Este é um filme repleto de elementos simbólicos, sendo ele próprio uma metáfora, uma premonição ou acto de consciencialização das mentes vazias.
Outra das iniciativas criativas deste grupo de cineastas foi o desenvolvimento do Manifesto Ruído Visceral. Com este pretendia-se abrir novos caminhos na criação de novas peças cinematográficas num contexto épico narrativo (com adaptações da Bíblia Sagrada ou da Odisseia) e excentricidade plástica e formal (com o descincronismo no som, por exemplo). Esta megalomania levou à clausura do projecto no inconsciente intelectual dos intervenientes sendo os seus filmes concretizados mentalmente, mas nunca reproduzidos nos pressupostos do cinema, ou seja, em imagens.
Por fim, uma nota e palavra de agradecimento a Ana Carneiro, realizadora de “Diz-me com quem andas...”. Embora não implicada directamente na Miramarx Produções, foi uma presença constante no desenvolvimento dos projectos levados a cabo pela produtora, contribuindo, desta forma, para a estrutura final das curtas-metragens e a própria criação destas. Mais uma mente no combate pela extinção da mediocridade da existência humana e do cinismo artístico e por isso mais um membro da extinta Miramarx. Obrigado.
Obrigado também a toda a gente envolvida.
A extinção da Miramarx Produções é o prenuncio para algo grandioso no futuro.


Luís Carneiro
Dezembro 2005

 

Prefácio

Manual dos Inquisidores é um espaço de critica e análise cinematográfica e das artes em geral. É pretendido aqui expor pontos de vista acerca do cinema e de tudo que com ele está relacionado. Serão abordadas tanto obras clássicas do passado como lançamentos actuais. Noticias, novidades, factos relevantes serão também introduzidos no manual. Enfim, um espaço que, como outros, embora poucos, pretende dotar o nosso país de uma linha de análise e critica cinematográfica racional e lúcida aparte de quaisquer fins lucrativos ou comerciais. Leiam, participem e espalhem a palavra.