Um primeiro ciclo foi encerrado. De alma virgem e raciocínio ingénuo, desenvolveu-se organicamente, por si só, sabendo quando nascer, berrar e calar. Fugidias, as ideias prespassaram a barreira física e material do espaço, como um judas, anjo caído, rebelde celestial do conceito alternativo.
Mais do que um conjunto de produções cinematográficas e audiovisuais, a Miramarx (produtora que agora encerra a sua actividade), foi a acção irreverente e inconformada de um grupo de três individualidades que colocaram ao dispor desta forma de arte, o seu pensamento, raciocínio e visão, inerentes ao estado das coisas num determinado período de tempo.
Não cabe a mim, um destes três elementos, julgar ou avaliar o trabalho efectuado, nem é esse o meu propósito. Proponho-me aqui, perante as vicissitudes da distância que o tempo me permite, olhar o passado friamente, sem o fulgor de uma ideia instantaneamente dopante.
Fazem parte deste movimento criativo quatro projectos materializados e um metafisicamente concebido. Todos agrupados, embora sem qualquer ligação narrativa ou pictórica propositada entre eles, denominam-se “No limiar da demência”.
O primeiro, uma narrativa sonorizada, retracta as perturbações mentais de um indivíduo que vive entre a visão feminina de um sonho seu e a ânsia de a encontrar na realidade. No exterior, tudo se conjuga e o conduz a um desfecho místico.
Este, de certa forma, representa um prelúdio para o que se seguiria. Realizado por Manuel Barros, “Está tudo acabado” ,concretiza a ideia anterior embora com um carácter mundano de forte psicologia sentimental. Não é um thriller comum; trata-se de uma interactividade visual entre os diferentes componentes filmicos, particularmente entre a cinematografia e o carácter das personagens. O conceito animal do Homem espelha-se no antagonista que se esconde por trás do desejo primitivo num acto psicótico de ganância extrema. A frieza da acção parece ser sentida no ambiente que a rodeia. A personagem feminina sujeita às atrocidades do amante sente-se deslocada no espaço físico como no sentimental, frio e cegante.
Em “Prophetia”, de José Oliveira o personagem é o tema em si mesmo. O realizador dá-nos a mão guiando-nos pela angústia e inquietação do Homem fechado em si mesmo e nas paredes que o prendem. Algo rasga a faixa de harmonia e transe perante a existência materialmente acelerada, descuidada de sentidos. Ínfima roda dentada da máquina do viver, o personagem do filme urge para uma acção predestinada desconhecida, acarretando em si os males particularmente visíveis a caminho do sacrifício urbano do exterior. O indivíduo assume o papel de um cristo, o profeta, escolhido por entre os demais, que embora sofra com a missão que lhe é superiormente imposta é levada a cabo pelo bem do equilíbrio natural.
“Entre Madonna e Wagner de Luís Carneiro” é o terceiro projecto do grupo, realizado, como o titulo indica, pelo próprio Luís Carneiro. Fundado na teorização e pensamento Nietzscheano e Wagnereano da corrupção intelectual do indivíduo este filme reporta à existência de uma jovem tipo dos anos oitenta, mergulhada em música e revistas pop que num sonho se vê perante o vulto e a ameaça de um pseudo Wagner, perturbando a sua aparente tranquilidade metafísica ou sua inexistência (o que lhe confere uma apatia sensível) e física, que resulta na sua morte. Este é um filme repleto de elementos simbólicos, sendo ele próprio uma metáfora, uma premonição ou acto de consciencialização das mentes vazias.
Outra das iniciativas criativas deste grupo de cineastas foi o desenvolvimento do Manifesto Ruído Visceral. Com este pretendia-se abrir novos caminhos na criação de novas peças cinematográficas num contexto épico narrativo (com adaptações da Bíblia Sagrada ou da Odisseia) e excentricidade plástica e formal (com o descincronismo no som, por exemplo). Esta megalomania levou à clausura do projecto no inconsciente intelectual dos intervenientes sendo os seus filmes concretizados mentalmente, mas nunca reproduzidos nos pressupostos do cinema, ou seja, em imagens.
Por fim, uma nota e palavra de agradecimento a Ana Carneiro, realizadora de “Diz-me com quem andas...”. Embora não implicada directamente na Miramarx Produções, foi uma presença constante no desenvolvimento dos projectos levados a cabo pela produtora, contribuindo, desta forma, para a estrutura final das curtas-metragens e a própria criação destas. Mais uma mente no combate pela extinção da mediocridade da existência humana e do cinismo artístico e por isso mais um membro da extinta Miramarx. Obrigado.
Obrigado também a toda a gente envolvida.
A extinção da Miramarx Produções é o prenuncio para algo grandioso no futuro.
Luís Carneiro
Dezembro 2005